quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010




Não esqueço nem por um segundo da minha vida. Nem dá para esquecer...
A sociedade no geral, nomeadamente pessoas ignorantes, têm tendência para olhar para a pessoa com deficiência, de uma forma totalmente diferente.
Elas são realmente diferentes sim, tal como as pessoas que não têm qualquer tipo de deficiência são diferentes. Todos nós somos igualmente diferentes uns dos outros, pois o ser humano é completamente único e heterogéneo, não querendo isso dizer que os valores, princípios e formas de respeito devessem ser distintos. Esses sim, deveriam ser todos iguais, pois não há dinheiro no mundo que pague o valor de um pequeno gesto demonstrado por um segundo, de um ser humano para outro.
Não é por acaso que me desloco, constantemente, a locais em que possa crescer como pessoa e profissional. Esses locais e essas pessoas, que tenham elas o tipo de deficiência que tiverem, me fazem ver mais do que aquilo que vejo no meu mundo!

No centro de apoio a Deficientes Mentais Profundos Papa João Paulo II (Fátima), aprendi que eles são muito mais genuínos e autênticos que nós, que nos consideramos "normais" (e que isso para mim da normalidade nem sequer existe), pois aceitam tudo de uma forma excepcional, sem colocarem nada em causa.

Na Casa de Saúde da Idanha (Belas), aprendi que acima da patologia que a pessoa transporta, está a própria pessoa. Tal como necessitam constantemente de tratamentos/comprimidos, também necessitam de afecto. É esse afecto que nós, ditos "normais", colocamos em último lugar, pois à sua frente estão outros tantos aspectos fúteis.

É importante perceber que, o mundo em que nós nos predispomos não é único, e que existem outros tantos que nem sequer sabemos que existem, pois se soubéssemos tudo seria diferente.

"Afia-me todos os lápis de cor, para eu parti-los. Só assim tu ficas aqui, comigo."

Dedicado a uma pessoa que tem uma patologia denominada por esquizofrenia, que tem 95% de falta de visão, que tem uns olhos azuis como nunca vi até hoje, e que me ensinou que o afecto é um dos ingredientes principais para se poder viver feliz.

Obrigada por tudo. "LO".

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Âncora



A minh' alma andou quase a vida toda à procura da serenidade nunca antes tida.
Quase a vida toda, mas não toda a vida. Felizmente.
Após ter saltado muros de arame farpado, ter pisado areia escaldada que me queimou os pés, consegui chegar ao mar.
Jamais esquecerei esse momento. Nesse tempo era o meu corpo que me acompanhava nas visitas semanais a Lisboa, que enfurecidamente era forçada a entrar naquele prédio, cujo cheiro penetrava nas minhas narinas de uma forma tão intensa que me fazia esquecer de tudo. Naquele lugar, esquecia que havia vida lá fora, que o céu era maravilhosamente azul, que as estrelas brilhavam quando nos ríamos, que o sol era belo como o dia em que vim ao mundo. Esquecia facilmente tudo isso, sobretudo quando um senhor a que chamavam médico vinha com ar demasiadamente sério falar comigo.
Até hoje não sei se, na realidade, aquele Homem era totalmente médico ou se tinha uma mão de Deus. Não tenho a certeza. Ninguem tem, mas eu acredito.
Nem tudo explica científicamente um momento, que foi sem dúvida uma conjugação das duas coisas mais perfeitas do mundo. A medicina e a fé.
Foi exactamente nesse momento que senti a liberdade e a serenidade dentro de mim.
Ao contrário do que se é dito, esses sentimentos persistiram quando estava dentro do meu barco. No mar.
Quando soube que tinha conseguido ultrapassar todos os muros de arame farpado, não mais saí do barco, não mais saí do mar.
Para que tudo não voltasse de novo, fundeei a âncora.
Ao observar que estava segura, deitei-me no barco, abri os braços e fui levada pelo vento numa viagem nunca antes percorrida.
Encontrei a liberdade.
Respirei serenidade e sorri.
Afinal, científicamente explica-se que uma âncora tem como objectivo dar segurança ao barco para que ele não se desloque.
Mas....não se explica científicamente a razão de uma simples e humilde âncora trazer ao Homem aquilo que ele não conseguiu obter durante toda a sua vida.

Dedicado a todas as pessoas que nunca tiveram uma âncora, lembrando-as que eu encontrei a minha porque acreditei que ela existia.

Quando encontrarem uma, guardem-na bem e não a voltem a içar.

domingo, 23 de novembro de 2008

Olhar para a vida...



Vem comigo...
Não tenhas medo de seguir os meus passos, ouvir as minhas palavras ou até mesmo de olhares para os meus olhos.
Já tentaste olhar verdadeiramente para os olhos de alguém?
Eu sei que não, mas experimenta uma vez...olha para os meus!
Mais do que um sem abrigo sou Homem.
Dou valor ao frio que se mantém na rua quando, debaixo dos meus jornais comprados por empresários bem sucedidos, tento encontar o calor...calor este que por tantos e bons anos tive o prazer de ter numa casa, que era minha, mas que me fugiu das mãos...
lembro-me de ter uma família, e que na noite de Natal se juntava para abrir os presentes...lembro-me sabes? mas agora não passa de uma mera recordação.
Por mais frio que faça na rua, por mais chuva que caia na minha cabeça, e por mais gelados que estejam os meus pés, não há nada mais cruel e sentido que o meu coração.
Não sei que fiz à vida...não sei o que a vida me fez a mim...
Ainda ontem passeava no lago onde agora me lavo todos os dias...ainda ontem ignorava o Homem a pedir esmola à entrada do antigo café da Praça do Comércio e, hoje aqui estou eu a ocupar o lugar dele...ainda ontem via o mar da minha janela e agora, por mais que procure não encontro nenhuma aberta.
Estas a olhar?
Vês a tristeza?
Eu sei que sim.Mas há uma coisa que tu nunca conseguirás ver...a minha dor!
A dor que se apodera de mim quando me apercebo que perdi tudo o que me fazia feliz...quando me apercebo que estou abandonado no mundo e que não existe ninguém que me consegue levantar...a dor que tenho quando passo na rua e as pessoas me olham como um ser diferente, imundo e pequeno.
Acredita, que imundo é o coração de pessoas más, que te magoam e derrubam.
Pequeno é o mundo de gente que não compreende mais do que aquilo que quer compreender...
Apesar de tudo, no meu mundo fico e no meu mundo ficarei até o tempo desgastar os meus sentimentos e toda a minha razao de viver...pois tudo isso se desgasta quando não é regado e colhido...
Olha de novo bem no fundo dos meus olhos...olha e ve que as raízes em mim ainda perduram...
...e sei que perdurarão para sempre porque flor que não é regada não floresce...tal como a vida que não é alimentada não cresce.